Carnaúba, da cera e do artesanato ao petróleo

dia quarta-feira, 12 de setembro de 2007
Palmeira do semi-árido já reveste dutos da Petrobras no Rio Grande do Norte, e iniciativa será estendida ao Ceará

Ramona Ordoñez*

UPANEMA (RN). O sertão ainda não virou mar, mas a carnaúba, palmeira típica do semi-árido nordestino, já se tornou componente importante da sofisticada e milionária indústria de petróleo e gás natural. Por sua característica de resistir a longos períodos tanto de seca quanto de alagamento, as folhas da carnaúba trançadas em esteira estão sendo usadas como revestimento de tubulações de vapor, nos sistemas terrestres de produção de petróleo da Petrobras no Rio Grande do Norte. O produto artesanal de origem indígena está substituindo as lâminas de alumínio, usadas anteriormente para revestir os dutos e que, por valerem muito como sucata, acabavam roubadas.

O uso das esteiras de carnaúba começou em fins de 2003 e já está beneficiando 350 artesãs de seis municípios localizados no Vale do Açu, no semi-árido, a cerca de 300 quilômetros de Natal. O inventor do uso da carnaúba para revestir dutos, o técnico de Projetos, Construção e Montagem da Petrobras no Rio Grande do Norte João Batista Dantas, afirma que a estatal acaba de aprovar a adoção da nova cobertura nos sistemas de produção do campo Fazenda Belém, no Ceará.

- Isso é muito importante para dar continuidade ao projeto - disse Dantas.

Além da economia que a solução original está gerando para a Petrobras, de cerca de 20% a 30%, o uso da carnaúba na indústria do petróleo está provocando um grande impacto social, com uma melhoria radical em várias comunidades rurais situadas no interior do Rio Grande do Norte.

Objetivo era acabar com os roubos e ajudar os carentes

O técnico da Petrobras não esconde o orgulho e a emoção ao falar dos benefícios que sua descoberta está proporcionando a comunidades carentes. Nesses locais, a maioria das pessoas passava dificuldades, muitas vezes sem ter o que comer.

- Nós somos do Nordeste e já conhecíamos as esteiras e as qualidades de resistência da carnaúba. Então, testamos, e deu certo - disse Dantas, com simplicidade.

Dantas afirma que o projeto começou com o apoio do Programa Fome Zero da Petrobras. O objetivo, segundo ele, era encontrar soluções para as operações da companhia, que sofria o roubo das folhas de alumínio, causando prejuízos e danificando as instalações. Mas a idéia era que as soluções pudessem, de alguma forma, permitir a inclusão social nas comunidades carentes da região, sem praticamente qualquer oportunidade de trabalho.

Comprovada a eficiência da carnaúba, começou a ser feito um trabalho conjunto da Petrobras, da ONG Carnaúba Viva, que reúne as artesãs, e do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).

Carnaúba já reveste 45 quilômetros de dutos

A produção das esteiras já faz parte da Cadeia Produtiva de Petróleo e Gás do Rio Grande do Norte, conforme explicou seu coordenador, Edilton de Oliveira Cavalcanti. O executivo disse que o Sebrae tem dado cursos de capacitação para as artesãs, com o objetivo de melhorar a qualidade do trabalho e do produto final.

A presidente da ONG Carnaúba Viva, Gracia Ramalho, conta que a organização começou com ela, o marido e cerca de cinco artesãs. Hoje, são 350. Gracia lembra que, no início, ela e Dantas tiveram dificuldades de encontrar quem fizesse esteiras, um artesanato que estava acabando devido à pouca procura.

- Foi no assentamento de Palheiros, no município de Upanema, que conseguimos encontrar pessoas que ainda faziam as esteiras - disse Gracia, informando que a ONG acaba de criar uma cooperativa para reunir as artesãs.

Já participam do projeto as artesãs dos municípios de Itajá, Assu, Mossoró, Carnaubais, Upanema e Ipanguaçu, todos no Vale do Açu, além de Aracati, no Ceará.

Estão sendo feitas também cintas de carnaúba, usadas para prender as esteiras nas tubulações. As esteiras, com 1,80 m de comprimento, recebem um verniz impermeabilizante de cor preta, e então são vendidas para a Petrobras.

O técnico explica que as esteiras, ou mantas, como também são chamadas, são colocadas como revestimento sobre a camada de um isolante térmico, usada nas tubulações de vapor. Dantas contou que, como as lâminas de alumínio eram roubadas, o isolante ficava ao relento e acabava se soltando, deixando as tubulações, que atingem 200 graus centígrados de calor, expostas ao tempo.

- A esteira é bem resistente, pois tem a característica natural de suportar tanto longos períodos de seca como períodos de alagamento - disse Dantas, ao lembrar que, em caso de incêndio, o fogo não se propaga.

A Petrobras está instalando as esteiras em todas as tubulações que estão sem revestimento, assim como nos novos dutos que estão sendo instalados. Até agora, já foram revestidos, com 32 mil esteiras, cerca de 45 quilômetros de dutos nos campos do Rio Grande do Norte.

A produção de petróleo nos campos terrestres é feita por um equipamento chamado "cavalo de pau", por suas formas semelhante às de um cavalo. Os equipamentos ficam nos campos cercados - em áreas extensas - sem a presença permanente de operários. No Rio Grande do Norte, a produção atual é de cerca de 71 mil barris diários de petróleo, dos quais 80%, cerca de 56 mil barris, são em terra.

Gracia Ramalho destacou que, além da inclusão social, o projeto da carnaúba está permitindo a proteção da própria palmeira. Os carnaubais, que no passado geraram muita riqueza na região, estão hoje dando lugar à fruticultura irrigada.

- A carnaúba é uma árvore milenar que gera renda para muitas famílias. Mas não tem ninguém que mande preservar - denuncia Gracia.

(*) A repórter viajou a convite do Sebrae

CURIOSIDADES SOBRE A PLANTA

ORIGEM: Da família das palmeiras, de procedência indígena. Encontrada no Nordeste, principalmente no Ceará, no Piauí e no Rio Grande do Norte.

TRONCO: Usado para construções rústicas, postes e móveis.

FOLHAS: Para fabricação de esteiras, colchões, cordas e inúmeros produtos de artesanato, como bolsas, chapéus, abajures e utensílios domésticos.

CERA: Retirada das folhas, é matéria-prima para ceras de polimento, graxas de sapato, cosméticos, sabonetes, fósforos, isolantes e discos (de vinil). Da cera se fazem revestimentos como verniz, goma de mascar, lubrificantes, detergentes, cápsulas de comprimidos e isolantes para computadores.

SEMENTE: Serve como alimento para animais de criação, e dela se extraem farinha e leite para uso humano. A amêndoa torrada e moída pode substituir o café.

PETRÓLEO: A esteira trançadas e coberta com uma tinta impermeabilizante é usada para revestir as tubulações dos sistemas terrestres de produção de petróleo.

A palha que ajuda a realizar sonhos

Artesãs que viviam de descascar castanha agora conseguem pôr comida na mesa e comprar eletrodomésticos

UPANEMA (RN). A carnaúba está permitindo que muitas pessoas no sertão do Rio Grande do Norte realizem sonhos, como ter comida na mesa para dar aos filhos, comprar uma poltrona, uma cama, um fogão ou um ventilador. É o caso da população de Palheiros, um assentamento na região do semi-árido, no município de Upanema, a cerca de 300 quilômetros de Natal. Reunidas em uma casinha que a ONG Carnaúba Viva está fazendo de ponto de encontro e depósito das folhas da planta, várias artesãs contaram como suas vidas e as de suas famílias mudaram desde que elas passaram a confeccionar as esteiras para a Petrobras.

Gracia Ramalho, presidente da ONG, explica que em Palheiros os homens trabalham em uma pedreira, cortando paralelepípedos, enquanto as mulheres, antes, ganhavam algum dinheiro descascando as castanhas de caju.

- Esse trabalho está resgatando a dignidade dessas mulheres e de suas famílias, além de preservar e disseminar a cultura de fazer esteiras, que estava morrendo - diz Gracia.

Segundo a presidente da ONG, as mulheres ganhavam R$0,50, em média, a cada quilo de castanhas descascadas. Algumas já faziam as esteiras para vender a outros artesãos, por um real. Esses artesãos compravam as esteiras para usar como matéria-prima de outros artefatos - chapéus, por exemplo. Havia ainda uma pequena produção de esteiras para servirem de embalagens de rapadura e colchões.

A artesã Antônia Rita da Silva, 44 anos, aprendeu a fazer as esteiras aos sete anos, com a mãe. Com o marido trabalhando na roça, a vida deles e dos três filhos antes do projeto da carnaúba era muito difícil.

- Muitas vezes vi meus filhos chorando, com fome, e eu não tinha nem podia comprar nem um pedaço de rapadura - diz Antônia Rita, que hoje é supervisora de 31 artesãs de Palheiros.

Ela conta, com orgulho, que consegue uma renda mensal de R$300 com a confecção das esteiras.

A maioria das mulheres faz as esteiras em casa, nos mais variados horários, mas principalmente à noite, depois das tarefas do dia. O rendimento depende do número de unidades, mas gira em torno dos R$300 mensais. Se antes a esteira era vendida a um real, agora o preço chega a R$6,50.

- Já consegui comprar coisas com meu trabalho que nunca na minha vida imaginei. Meus sonhos estão se realizando. Aumentei minha casa e já comprei cadeiras, sofá, televisão, geladeira. Minha filha comprou um ventilador para ela. Tudo isso eram sonhos - afirma Antônia Rita, cuja próxima meta é comprar um fogão.

A posição para trançar a palha é incômoda: a mulher fica sentada no chão e, com um dos pés, firma a esteira para fazer as tranças. Mas Maria da Conceição Costa e Silva - a Ceição, como é chamada -, uma das mais antigas artesãs, parece não se cansar. Faz de duas a três esteiras por dia e fala tão rapidamente que quase não dá para compreender:

- Foi bom demais (referindo-se ao projeto), quem quer trabalhar ganha dinheiro, só não ganha quem não quer trabalhar.

A renda de Ceição passou a ser o sustento da família, formada pelo marido e um filho de 18 anos.

Já Kátia Cristina da Conceição Silva, de 27 anos, começou a aprender a fazer as esteiras há cinco meses. Ela não quer mais saber de descascar castanhas, o que lhe rendia R$30 por mês:

- Já comprei muitas coisinhas. Agora, espero conseguir comprar uma televisão.

(Ramona Ordoñez, enviada especial - a repórter viajou a convite do Sebrae)
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