HISTÓRIA DA CERÂMICA - PARTE 2














 

A repercussão da matéria sobre a antiga Cerâmica de Upanema acabou confirmando algo que muita gente já imaginava: de alguma forma, a Cerâmica estava ligada à história de praticamente todas as famílias da cidade.

Foram dezenas de comentários, lembranças e relatos enviados por pessoas que trabalharam no local, tiveram familiares empregados na Cerâmica ou simplesmente guardam memórias daquele tempo. Mais do que uma fábrica de telhas e tijolos, a Cerâmica Sevania fazia parte do cotidiano de Upanema.

Muita gente inclusive não conhecia o verdadeiro nome da empresa. A antiga Cerâmica levava o nome de Cerâmica Sevania, uma junção dos nomes Sebastião e Evânia, casal que administrou o empreendimento durante um dos períodos mais importantes de sua história. Pela importância que tiveram para o município, há quem defenda até uma homenagem futura, como o nome de alguma rua próxima à área onde funcionava a Cerâmica.

Mano, filho do casal Sebastião e Evânia, também trouxe novas informações sobre o encerramento das atividades da Cerâmica, ocorrido em 1995. Segundo ele, o principal motivo foi a dificuldade logística enfrentada pela empresa na época.

“Não tínhamos condições de disputar preço com as cerâmicas de Assú. O frete de Upanema para qualquer outra localidade ficava muito caro, principalmente porque naquela época não existia o acesso que temos hoje. Esse foi o maior motivo do fechamento”, relatou.

Ele também contou um pouco da trajetória de seu pai, Sebastião Corrêia Neto, natural da cidade de Apodi. Ainda criança, foi morar em Natal com a família, após seu pai, que era sapateiro, enfrentar dificuldades para sustentar os filhos no interior. Em Natal, Sebastião trabalhou desde cedo: juntou ossos e vidros, vendeu sacos de papel feitos com grude nas feiras livres e chegou a carregar balaio nas feiras da capital. Mesmo diante das dificuldades, conseguiu estudar, se formar e ainda ajudar o pai na criação dos outros oito irmãos.

Segundo Mano, Sebastião sempre manteve uma forte identificação com as pessoas mais humildes. Em Upanema, criou amizades profundas, principalmente com Dieca, Seu Nilton e Zé Leonel, avô deste autor, com quem passava horas conversando no escritório ou no alpendre da casa da Cerâmica.

As lembranças enviadas pela população ajudam a mostrar a dimensão que a Cerâmica Sevania teve para Upanema.

Joaquim Neto contou que seu pai, Antônio Joaquim, era responsável por uma das turmas de corte de lenha na região onde hoje ficam os assentamentos 4S. Segundo ele, cerca de vinte homens trabalhavam durante toda a semana no meio da mata cortando lenha para abastecer os fornos da Cerâmica.

Maria Mariza relembrou que seu esposo, conhecido como Titi, trabalhou durante muitos anos transportando telhas para Natal e Campina Grande.

Evanilson também recordou o período em que acompanhava o pai, Manoel Ciríaco, no corte de lenha para a Cerâmica. Segundo ele, havia dezenas de homens trabalhando na mata e um dos caminhões usados no transporte da lenha pertencia ao saudoso Tota, filho de Tonheiro das Barreiras.

Argemiro comentou que trabalhou vários anos na Cerâmica e destacou a importância social do local: “Foi um escape para muita gente. Lembro que chegou a empregar mais de 100 pessoas. Comecei ainda adolescente, com 12 anos.”

Ramiro relembrou o trabalho ao lado do pai, Seu Nelson, que ajudava a encher os fornos de telhas. “Fazemos parte desse capítulo da história de nossa Upanema junto com tantos outros da época”, comentou.

Rachel Carvalho contou que, ainda nos anos 1990, quando viajava para o Sítio Cajueiro, ficava olhando a Cerâmica ao se aproximar da travessia do rio.

Já Maria Aderalda lembrou da relação de sua família com Chico Veras e da antiga região da Baixa da Caraúba, ligada ao fornecimento de lenha para a produção.

Dedé Suenilson também compartilhou sua memória afetiva sobre o lugar: “Boas lembranças. Fiz parte dessa história. Era de Zé Reis, depois Sebastião Corrêia comprou. Eu era de dentro da casa de Dona Evânia, Tone e Mano. Faz mais de 40 anos, mas lembro dos quatro cantos da Cerâmica.”

Todos esses relatos ajudam a mostrar que a história da Cerâmica Sevania vai muito além de uma estrutura física ou de antigas chaminés. Ela representa uma época em que Upanema crescia através do esforço de trabalhadores simples, homens e mulheres que ajudaram a construir a cidade com as próprias mãos.

Hoje, as construções praticamente desapareceram. Mas a memória permanece viva nas fotografias, nas histórias contadas e, principalmente, nas pessoas que fizeram parte desse importante capítulo da história de Upanema.

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